Em uma decisão que balançou a cena política carioca na tarde desta segunda-feira, 23 de março de 2026, Cláudio Castro, Governador do estado, entregou sua carta de renúncia no Palácio Guanabara. O movimento ocorreu exatamente um dia antes de uma sessão aguardada com expectativa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O cenário era claro: evitar um possível cancelamento do mandato e uma declaração de inelegibilidade por oito anos.
O Cenário Immediato da Renúncia
Aos 16h30, o clima estava tenso dentro da sede do poder estadual. Castro não escolheu sair discretamente. Pelo contrário, organizou uma cerimônia formal para encerrar seu ciclo de quase seis anos no comando. Durante o pronunciamento, ele destacou conquistas em segurança pública, mencionando inclusive a operação no Complexo do Alemão no ano anterior, que resultou em 121 mortes entre criminosos. "Saio de cabeça erguida", afirmou, com uma voz firme que ecoou pela plateia cheia de aliados políticos e imprensa.
Apesar do discurso otimista — ele chegou a dizer que "sai feliz" —, os detalhes jurídicos pintavam outro quadro. A estratégia de renunciar antes do julgamento foi analisada rapidamente por especialistas. Para muitos, foi um cálculo de risco para preservar a honra e tentar manter opções políticas futuras abertas, mas a realidade jurídica logo bateu à porta. O Partido Liberal, sigla onde Castro se filia, viu seu principal nome estadual deixar o cargo sob a sombra de investigações eleitorais.
O Caso no TSE e o Julgamento Decisivo
O que motivou essa mudança abrupta? Tudo girava em torno de um processo envolvendo a Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação e Servidores Públicos do RJ (Ceperj). As acusações apontavam abuso de poder político e econômico durante a campanha de reeleição de 2022. A relatora do caso, ministra Maria Isabel Galotti, já havia votado pelo cancelamento do mandato em novembro.
Ocorre que o julgamento estava marcado para terça-feira, 24 de março. Até lá, faltava a definição de um voto. O ministro Antônio Carlos Ferreira solicitara vista, ou seja, precisava de mais tempo para estudar o caso antes de opinar. Era o voto de qualidade. Ao renunciar na véspera, Castro tentou esvaziar parte do conteúdo da decisão, pois sem mandato ativo, o cancelamento perde sentido imediato. Contudo, o Tribunal seguiu adiante.
No dia seguinte à saída do governador, o TSE votou por 5 a 2 para declarar Castro inelegível por oito anos. Ou seja, mesmo renunciando, a sanção política permaneceu. Isso complica, ou inviabiliza, planos futuros. Segundo o analista político Caio Junqueira, do CNN Brasil, a saída foi claramente um tentativa de contornar o estrago total, embora o tribunal mantenha seu foco nos direitos políticos do ex-governador.
Vácuo de Poder e Nova Gestão
Com a renúncia entregue na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), na noite de 23 de março, criou-se um vácuo institucional imediata. O vice-governador, Thiago Pampolha, não estava disponível. Ele havia deixado o cargo no final de 2025 para assumir posição no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ).
Nesse contexto, o destino apontou para a magistratura. Ricardo Couto, desembargador-presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, assumiu interinamente o executivo estadual. A transição também afetou a presidência da câmara municipal, com Rodrigo Bacellar afastado das funções legislativas temporariamente. O foco agora é organizar o processo de eleição indireta.
A lei determina que os 70 deputados estaduais da Alerj devem escolher um novo gestor. Isso será decidido dentro de um mês, em uma votação que define quem completará o chamado "mandato-tampão" até o fim de 2026. Couto tem 48 horas desde sua posse para convocar esse processo eleitoral interno. É uma janela curta para uma decisão que impactará diretamente a gestão pública fluminense.
Plano B: A Briga pelo Senado
Mesmo diante da inabilidade declarada pelo TSE, Castro já sinalizou intenções. Em sua despedida, mencionou candidaturas a cargos federais, especificamente uma vaga senatorial pelo Rio. A questão, porém, é o timing. Se a inelegibilidade é válida imediatamente, sua chapa seria barrada nas urnas, salvo recurso liminar no STF ou revisão posterior.
Há um paralelo interessante com a saída do prefeito Eduardo Paes, do PSD. Inicialmente, a estratégia de Castro parecia seguir um caminho discreto, similar a transferências burocráticas comuns. Mas após a cerimônia de Paes, a equipe de comunicação decidiu tornar o momento público. A pressão dos aliados sugeriu que uma saída silenciosa poderia ser interpretada como fraqueza.
Perguntas Frequentes
Quem assumiu o governo do Rio depois da saída de Cláudio Castro?
O comando foi assumido interinamente por Ricardo Couto, desembargador-presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Isso aconteceu porque o vice-governador Thiago Pampolha já havia deixado o cargo anteriormente para atuar no TCE-RJ.
Qual foi a razão principal da renúncia antecipada?
A renúncia ocorreu para evitar o cancelamento direto do mandato no momento. Mesmo assim, o TSE prosseguiu com o julgamento e declarou sua inelegibilidade por oito anos devido ao uso indevido de dinheiro público na campanha de 2022.
Como será escolhido o novo governador?
A sucessão ocorrerá via eleição indireta. Os 70 deputados da Alerj votarão para eleger o successor que completará o mandato até o fim de 2026. O processo deve começar dentro de 48 horas após a posse interina.
Cláudio Castro pode concorrer ao Senado Federal?
Ele manifestou interesse, mas a decisão do TSE de declará-lo inelegível por oito anos cria um obstáculo jurídico sério. A menos que consiga revoga-la judicialmente, sua candidatura seria barrada antes das eleições.